quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DE VOLTA AO BERÇO


por Matheus Jacques

Quem nunca relembrou de seu passado? Quem nunca tentou fazer de novo as coisas que fazia só para sentir o gostinho mais uma vez? Dia 28 de Setembro foi o meu dia de fazer tudo isso. Na verdade, dia 26, nos treinos, já comecei a sentir aquele gostinho que há muito não tinha. Foi mais do que um longo ano longe dos karts. Seria meu primeiro treino oficial desde que havia “pulado para o outro lado do muro”, ou seja, desde que passei a pilotar carros. A emoção de rever os amigos, os mecânicos, estar na pista que tanto aprendi, que tanto me esforcei, era imensa. Eu não via a hora de sentar e acelerar. Acompanhar os ponteiros não seria uma tarefa fácil. Eles treinam quase todos os dias, conhecem cada buraco daquela pista. Eu também conheço, afinal, foram mais de mil voltas que dei naquele kartódromo. Depois de muita conversa com “O Cara” que me fez piloto, o Claudinho, que tanto brigou comigo, pegou no meu pé e me deixou bravo e que hoje sou grato por isso tudo, sentei no kart e saí para o primeiro treino oficial. Estava de volta à minha casa, ao lugar em que eu nasci para o automobilismo. Essa vontade de vencer, de buscar sempre o melhor começou a dar sinais de vida ali, naquele pequeno monoposto, que anda a poucos centímetros do chão. Em poucas voltas já estava pegando o ritmo e me reacostumando com a velocidade e os reflexos necessários para ser rápido. No final do treino, fui recebido com sorrisos dos meus mecânicos no box e fui avisado que tinha feito o segundo melhor tempo entre 26 participantes. Estava satisfeito comigo mesmo, mas agora tinha a certeza de que poderia andar entre os ponteiros.
Uma característica legal da categoria é que todos os motores são fornecidos pela organização e sorteados, ou seja, as diferenças entre os motores existem, mas são geralmente pequenas. Na sexta-feira, o treino já seria com o motor sorteado. Por azar, pegamos um bem fraco e acabamos com o sexto tempo mais rápido.
Esses treinos oficiais foram todos durante a noite, ou seja, frio e pista escorregadia. Por falta de experiência que tenho na categoria, cometi o erro de deixar as configurações do kart boas para aquele tipo de condição, mas a tomada de tempos no sábado foi as 15h00min da tarde. Sol forte e pista quente. Dei o meu melhor, mas o acerto estava muito ruim e largaríamos em 19° entre os 26 inscritos. Fiquei desapontado, pois como a corrida é feita em dupla, deixei o meu parceiro, Victor Marlia, na mão. Pedi algumas mudanças e a equipe as fez.
Não podia deixar transparecer o meu desapontamento, precisava passar confiança ao meu parceiro e durante o dia tentei fazer isso. Conversei bastante com ele, lembrei que a corrida era de longa duração, 1 hora e vinte minutos; que a equipe ordenou que ele faria a primeira metade da corrida e também que seria importante que o kart chegasse inteiro. Pedi que ele acelerasse, mas ultrapassasse só em locais com menos risco.  Ele já estava sentado no kart e pronto quando eu desejei boa sorte e me dirigi aos boxes. A troca de pilotos ocorreria lá então achei melhor assistir a corrida de lá mesmo.
A largada foi dada e eu estava lá aflito assistindo meu companheiro lutando contra os outros. Era uma disputa difícil e eu não estava gostando da sensação de vê-la de fora da pista.
Não estava gostando mesmo. Apesar de confiar no meu parceiro de dupla, eu queria estar no lugar dele, acelerando e ultrapassando o pessoal. Para aumentar minha aflição, começou a garoar. É o tipo de condição de pista que eu mais gosto, mas eu não sabia se ele se sairia bem.
Fizemos uma parada excelente nos boxes. Eu estava no controle agora. A pista estava um pouco escorregadia e os pneus eram para pista seca. Demorei cerca de 2 voltas para “pegar a mão” da pista e começar a acelerar forte. Outra característica da categoria é a intervenção no meio da prova para reagrupar o grid. Com a relargada, coloquei a faca nos dentes e fui para cima dos outros karts. Eu estava em 24° e queria pelo menos um top 5 no corrida. Então acelerei. Usei todos os macetes que eu conheço naquela pista, forcei o kart e fui ultrapassando um por um. Eu estava com sede. Não era sede de água, mas sim de ultrapassagens. Me arriscava, lembrei do que o grande Ayrton disse uma vez: “Kart é um esporte de contato.” Então usei esse pensamento e dava umas encostadinhas as vezes para concluir as ultrapassagens. Via minha equipe vibrando e aquilo me motivava cada vez mais. Eles acreditavam em mim e eu dava o meu melhor para retribuir. A cada volta era uma nova ultrapassagem e a equipe vibrava mais. Eu era o mais rápido da pista e vinha chegando nos ponteiros. Quando eu estava na sexta colocação, um dos suportes da carenagem do kart quebrou, arrastando-a pela pista e eu comecei a perder tempo. Já não era o mais rápido e muito pelo contrário, comecei a tentar segurar o pelotão. Aquele ânimo virou drama. Poucas voltas para o final e eu me esforçando para não ser ultrapassado. Via o desespero no rosto dos integrantes do time, mas eu não podia me deixar levar pela emoção. Coloquei minha cabeça no lugar e me reconcentrei. A cada volta a situação do kart se agravava e começou a ser impossível segurar os oponentes. Eu estava me matando para levar o kart até o final, estava ficando exausto, mas continuava dando o meu melhor. Final de prova e eu cruzei a linha de chegada na oitava colocação. Eu não estava desapontado muito menos o time. Fui recebido calorosamente no parque fechado e elogiado pelos pilotos que andam entre os ponteiros nessa categoria.
Fim deste final de semana de recordações. Uma corrida que não valia muita coisa para mim, mas mesmo assim aprendi bastante. Aprendi a não desistir, a manter o foco apesar das circunstâncias. Aprendi que para vencer uma corrida, é preciso muito mais do que ser um piloto rápido. É preciso estar preparado para tudo, pronto para qualquer contratempo. É preciso saber a hora certa de ultrapassar e a hora certa de poupar equipamento. Foi a minha primeira corrida de longa duração contra pilotos profissionais e adquiri uma valiosa experiência. Tenho absoluta certeza de que usarei tudo isso na última etapa do Campeonato Paulista de Formula Vee para sair de lá com o título de Campeão! 


Um comentário:

  1. Matheus, meu querido, adrenalina é o seu sobrenome. Continue assim, focado, e certamente, o grito de campeão ecoará na próxima etapa. Boa sorte, torcendo muito por você. Fé, Foco, Humildade, Generosidade, Sorte = Sucesso. Você vai chegar lá.

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