terça-feira, 17 de setembro de 2013

NA LIDERANÇA DO CAMPEONATO


por Matheus Jacques

Penúltima etapa do Campeonato Paulista de Formula Vee. Cheguei em Interlagos na sexta-feira em 2° lugar no campeonato com 4 pontos de desvantagem para o líder, isto com os 2 descartes obrigatórios. Eu me sentia pressionado. Não pelos meus pais, não pela equipe e nem por ninguém, mas por mim mesmo. Tenho esse costume, me cobro, não aceito nada além de ser o primeiro, o melhor. Alguns dizem que isso é ruim, outros que é bom, mas eu não ligo, apenas levo isso comigo. Logo no primeiro treino cravamos o 2°melhor tempo sem mesmo exigir tudo o que o carro podia oferecer, mas já no 2° treino, um pequeno problema no motor nos fez recolher o carro sem ao menos ter dado uma volta. Uma pena, mas não nos preocupamos, pois tínhamos a certeza que a equipe resolveria tudo e sabíamos que estaríamos entre os mais rápidos.  Não tínhamos mais nada para fazer no autódromo, mas mesmo assim ficamos lá. Enquanto uns vão para a balada, para um bar ou farrear com os amigos, eu passo uma noite de sexta-feira sentado dentro do meu carro conversando com os mecânicos e contando histórias, sentindo o “cheirinho de carro de corrida”.  Esse é o meu mundo e essa é a minha vida. Não posso reclamar de nada, muito pelo contrário, tenho que agradecer por ter a oportunidade de fazer o que eu amo.
Na manhã de sábado, levantei da cama e fui para o banho. Sempre reservo essa hora para fazer estratégias para a corrida, mas dessa vez foi diferente. Tive uma conversa muito boa com o Alfredo Guaraná Menezes, um dos mitos do automobilismo brasileiro. Ele viu a corrida que ganhei e me elogiou bastante, mas, além disso, me deu muitas dicas sobre como guiar um Formula Vee. Escutei tudo o que ele tinha para falar e naquele banho, prometi que colocaria tudo em prática.
Já no carro, pronto para a tomada de tempos, percebi que o aparelho que mostra o tempo das voltas estava sem bateria, então eu teria que guiar “sozinho”, sem saber se o que eu estava fazendo trazia os resultados esperados ou se eu estava com tempos constantes. Mas tentei me manter seguro, sabia o traçado certo, pontos de referência e tinha em mente as preciosas dicas do Guaraná. Fui para a pista e já na primeira volta senti que o carro não estava do jeitinho que eu gosto, mas mesmo assim me adaptei e tentei algumas voltas rápidas. Recebi placa de Box e parei. Disseram-me que eu estava em 4° lugar e que precisava melhorar meu tempo. Pedi um ajuste de calibragem no carro e a equipe logo o fez. Parti para os últimos minutos e logo senti o carro bem melhor. Dei algumas voltas boas, mas sentia que precisava melhorar. Decidi arriscar. Não sabia quanto tempo ainda tinha para o fim da tomada, mas precisava fazer isso. Diminuí muito a velocidade esperando alguém me passar e me dar um vácuo para a minha volta rápida. Podia perder a última oportunidade de virar um tempo melhor, mas era necessário arriscar. Esperei e então um carro passou, precisava calcular um espaço certo para que eu pegasse o vácuo dele apenas na reta dos boxes na volta seguinte. Era difícil, mas eu tentei. Acelerei, abri a volta e comecei a buscar o carro da frente. Caprichei, segurei o carro, mas um pequeno erro na curva do Laranjinha me atrapalhou. Mesmo assim busquei o carro da frente, acertei nos cálculos e cheguei nele na curva da Junção, peguei o vácuo e cruzei a linha de chegada no exato momento em que o tempo da classificação se esgotara. Sabia que não tinha feito a volta perfeita, mas foi uma boa volta. Parei o carro no parque fechado e fui informado que tinha cravado o 2° tempo, largaria na primeira fila.
Cada hora parecia um dia, cada segundo parecia uma hora e assim se passou o tempo até o momento da corrida. Largando da segunda posição, enquanto o meu principal concorrente pelo campeonato largaria apenas na décima primeira, precisava apenas fazer uma corrida conservadora. Largar e chegar no top 5 seria um bom resultado para o campeonato, mas como eu disse, não aceito nada além de ser o primeiro. Teria cautela, mas queria vencer. Sentei no carro e o levei para o grid de largada. Fizemos a volta de apresentação, alinhamos e aguardamos o acender das luzes. Confesso aqui para vocês, essa é a parte mais tensa de uma corrida, é onde o coração dispara, onde o tempo passa em câmera lenta, mas me mantive focado, o grande Nuno Cobra disse que a “alma do negócio” é controlar o batimento cardíaco. Controlei-o. Respirei fundo e aguardei. Largamos e descemos o S do Senna. Mantive minha posição e parti para o ataque ao líder. Assumi a ponta na segunda volta, mas quando olhei no retrovisor, mais quatro Vees estavam atrás de mim. Disse para mim mesmo: “essa vai ser dureza”. Descíamos a reta oposta em “3 wide” todas as voltas, sem exceção. Disputávamos roda a roda o tempo inteiro, coloquei rodas na grama para ultrapassar um concorrente, fiz boas ultrapassagens, mas tomei muitas melhores ainda. Era uma briga das boas, fizemos aquela pista de Formula 1 ficar pequena para os Vees. Para falar a verdade, me senti em uma corrida de kart. Disseram-me no rádio que o meu concorrente ao campeonato tinha acabado de rodar e estava em último. Eu era o líder enquanto ele era o “lanterna”. Placa de 3 voltas para o final, caí para 3°, avisei no rádio que ficaria em terceiro até a última volta, aí passaria os dois na reta de chegada, como na minha última vitória. Placa de 2 voltas, depois 1. Contornei o S do Senna grudado na traseira do segundo colocado, descemos a reta oposta e quando entrei na curva do Lago fui atingido violentamente por um piloto. Saí da pista, mas lutei para retornar logo. A equipe me motivava no rádio dizendo para terminar a corrida e levar o “bebê” para casa. Era difícil manter o carro em linha reta, a direção estava toda torta, a batida tinha desalinhado totalmente o carro, parecia que ele estava andando de lado, mas levei-o até a linha de chegada. Finalizei na quarta colocação, mas momentos depois da corrida, na vistoria, um dos pilotos foi desclassificado e eu acabei subindo para 3°. Depois de três quebras, foram 3 difíceis corridas lutando para encostar novamente no líder do campeonato e agora eu assumi a liderança. Foi difícil. Batalhamos, discutimos, suamos, mas vencemos. Disseram-me que seria difícil e foi mesmo. Disseram-me que seria um desafio e foi mesmo, mas é o desafio que me move, me atrai. Enfrentei-o e venci, mas nunca sozinho. Tenho uma equipe, uma família e amigos por trás e é assim que vamos para a última etapa dia 22 de Dezembro. Líder do campeonato (com os descartes obrigatórios), com uma equipe unida e com uma enorme vontade de vencer.


2 comentários:

  1. Adorei seu texto, Matheus! E estou na torcida pela vitória no dia 22 de dezembro!

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  2. Ai, ai Matheus, novamente você me colocou dentro do seu carro. Garoto (posso chamá-lo assim, afinal tenho + de 3 vezes a sua idade). Você me encanta. Sua maneira de escrever é mágica. Ainda não o vi correr, mas lendo seu texto fico imaginando, e suas palavras me faz lembrar um grande líder. Mas, por favor, cuidado. Não seja seu grande adversário. Força, Foco e Fé. Tenho certeza que você vai chegar lá. Beijos.

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