segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A volta por cima

Por Matheus Jacques

Um final de semana para não esquecer. A oitava etapa do Campeonato Paulista de Fórmula Vee foi disputada no dia 10 de agosto, mas para mim começou muito antes. Logo após a minha quebra e consequente abandono na sétima etapa, intensifiquei os meus exercícios físicos, estudei milhões de vezes os meus vídeos e os dos concorrentes. Eu precisava vencer para voltar à briga pelo campeonato e faria tudo o que estivesse ao meu alcance para tornar isso real.
Sexta feira, 9 de setembro, dois treinos livres. Carro e piloto prontos, vamos para a pista! Mais uma vez me sentia vivo. Vestindo meu uniforme e sendo feliz. Mesmo com o motor falhando, conseguimos fazer o segundo tempo no primeiro treino livre. Encontramos o problema e aguardamos a hora para acelerar mais uma vez no treino da tarde.
A nova configuração do carro estava ótima, conseguimos um bom tempo no segundo treino livre, mas fui superado por pouco por outro piloto e ficamos novamente com o segundo tempo. A equipe estava contente com os resultados e eu também. Os tempos estavam bons e os outros concorrentes ao título estavam algumas posições atrás.
Sábado de manhã eu acordei e fiz, mais uma vez, aquele ritual. Entrei no banho e fiquei lá pensando em como poderia ser a corrida, traçando planos que me levariam à vitória. Eu estava nervoso, não podia negar, mas era necessário ter controle, ser frio e tornar aquele nervosismo um impulso para me tornar mais rápido. Na tomada de tempos, fizemos o terceiro tempo com menos de um décimo de segundo para o pole-position.  Estávamos confiantes e sabendo que as chances de vencer eram boas, mas sabendo também que seria uma corrida muito difícil. Seria tudo ou nada, vencer ou vencer, me aproximar dos líderes ou perder o campeonato naquela corrida mesmo. Nervosismo, tensão, ansiedade, uma mistura de tudo e eu me controlava para não demonstrar, tentava me convencer de que estava tudo certo. Com um pouco mais de uma hora para a corrida, me isolei, precisava ter um tempo para relaxar e focar totalmente na corrida. Seria uma corrida mais longa, o regulamento foi alterado para 15 voltas ou 30 minutos e eu agradeci a mim mesmo por ter melhorado o meu preparo físico.

Já no grid de largada esperando pela volta de apresentação, comecei a lembrar dos vídeos que estudei. Tinha em mente como cada piloto se comportaria em uma disputa acirrada e sabia o que fazer para chegar à liderança. Quando a placa de um minuto para a volta de apresentação foi levantada, liguei o motor do carro. Junto com ele, meu coração batia forte no peito. Saímos. Enquanto aquecia os pneus ziguezagueando pela pista, controlei meu coração e voltei a ser frio, calculista. Chequei a temperatura do óleo e motor, tudo certo. Parei o carro na minha posição e aguardei. Ao apagar das luzes, vinte e dois Vees partiram junto comigo. Todos com um objetivo. Minha primeira marcha não engatou e o carro ficou no ponto morto. Enquanto era ultrapassado, engatei mais uma vez e parti. Nessa brincadeira, cai para sétimo, mas na primeira curva assumi a sexta posição. No rádio, a equipe dizia que ainda estávamos na briga. Fechei a primeira volta na quarta posição. Era a disputa mais intensa que eu já tinha participado desde a minha entrada na categoria. Seis carros lutando bravamente pela primeira colocação. Chegamos a entrar na curva do Laranjinha em uma linha de três carros lado a lado. Na minha cabeça só passava uma coisa: vencer. Mas na segunda volta caí para a sexta posição, a partir daí, entretanto, comecei a me recuperar. Fui passando um a um e assumi a liderança na sétima volta. Comecei a me distanciar, junto com o segundo colocado, dos outros competidores. Na nona volta já tínhamos uma distância confortável e começamos a brigar pela liderança. Já imaginando que a corrida seria decidida na última reta, a equipe pediu para que eu contornasse a Junção em segundo e tentasse ultrapassar o líder antes da linha de chegada. Seria um teste. Obedeci e consegui. Estratégia para a corrida estava feita. Eu teria que ser frio e deixar para ultrapassá-lo na última reta. A partir daí, comecei a ser mais conservador. Não brigava tanto com o outro piloto. Deram a placa de três voltas para o final e eu avisei no rádio “não vou mais ultrapassar até a última reta”. A equipe concordou. Foram três intermináveis voltas de pura perseguição. Aparecia no retrovisor do outro piloto para botar pressão e me mantinha colado na traseira dele. Entramos na última volta, eu estava tranquilo, sabia o que tinha que fazer e faria. Tranquilo e determinado. Foram três voltas de espera e agora teria que dar certo.  Vencer e me aproximar no campeonato ou terminar em segundo e vê-lo cada vez mais longe. Dei um espaço na Junção e acelerei antes. Tracionei melhor. “É agora, Matheus, acelera, acelera!” Enquanto ouvia isso no rádio, entrei no vácuo do líder e pisei fundo. Fui me aproximando devagar enquanto contornávamos o Café, coloquei o carro do lado do líder e fui passando-o, devagarzinho. A linha de chegada se aproximava e ele ainda estava na ponta. Nos últimos metros o meu bico ficou na frente e eu recebi a bandeirada trinta e cinco milésimos antes do outro piloto. Fui eu quem primeiro ergueu o punho. Tantas coisas passando na minha cabeça que eu não sei nem descrever. A equipe gritava coisas que eu não consegui entender, eu agradeci por tudo e disse “Voltamos para a briga, estamos no campeonato de novo!”. Gritava no capacete. Tirei um milhão de quilos que eu mesmo havia colocado em cima das minhas costas. Sentia-me tão aliviado, tão feliz, tão... vivo. No parque fechado, desci do carro e fui aplaudido por todos que estavam ali. Olhei em volta com os olhos cheios de lágrimas, vi o Eduardo Bassan, Nenê Finotti, Magrão, Ricardo, meu pai... Devo tanto a eles. Todos aqueles aplausos não deveriam estar sendo dirigidos a mim, mas sim a eles. Todos trabalharam duro para me dar o melhor equipamento, todos suaram, lutaram e sofreram junto comigo. Não venci sozinho, vencemos juntos. É desse jeito, juntos, que vamos vencer esse campeonato. Estava em terceiro . Agora sou o segundo com apenas 5 pontos de desvantagem. Ainda temos mais duas corridas. Não sou um, não estou sozinho nessa, somos uma equipe e essa equipe está prontinha para vencer o campeonato.

Matheus Jacques é piloto da Fórmula Vee

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