sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A GALINHA OU O OVO?

Esta postagem surgiu de um debate que se iniciou no Facebook. Para não congestionar o espaço do Mestre Lito Cavalcanti, trouxemos para cá. Dito isso, vamos lá: o problema do automobilismo atual, no caso do Brasil, está na base.
Nos anos 60, o automobilismo no Brasil era realmente nacional, com campeonatos regionais de diversas categorias em diversos estados; oportunidades para estreantes e novatos e até mesmo a admissão de carros improvisados, como o célebre “patinho feio”, de Nelson Piquet.

A facilidade para participar do esporte funcionava mais ou menos nos moldes dos campos de pelada, celeiros democráticos para o surgimento de grandes craques. Assim, para ficar apenas no exemplo dos nossos campeões, Emerson corria numa moto improvisada; Piquet vinha de “patinho feio” e Ayrton num kart construído com motor de cortador de grama. O resumo: quem queria, corria!

Essa “escola” permitiu o surgimento de uma safra de pilotos excepcionais como Alex Dias Ribeiro, Ingo Hoffmann, Chico Serra, Raul Boesel, Roberto Moreno e isso só para falar nos que chegaram à F1!

Com liberdade para correr o talento foi forjado e a chegada de Emerson na Europa, em 1969, foi um acontecimento: em menos de um ano Fittipaldi foi da F-Ford à F1, com direito à vitória na principal categoria do automobilismo mundial já em sua quarta prova. Um fenômeno! Com isso, as atenções da mídia se voltaram para Emerson e sua trajetória de sucesso e como resultado iniciou-se uma engrenagem que trouxe a F1 para Interlagos e para a Rede Globo, dando início à popularização da categoria no país.

Dai fomos emendando um no outro: Emerson, Piquet e finalmente Senna e o Brasil chegou a ser o país com o maior número de títulos mundiais durante certo tempo (se desmembrarmos o Reino Unido em Inglaterra e Escócia, ou o segundo se consideramos a Grã-Bretanha como um todo).
A geração seguinte a essa, notoriamente Rubens Barrichello e Felipe Massa, também foi bem sucedida, com dois vice campeonatos para o primeiro e um para o segundo, entretanto, para o brasileiro, o vice campeão é o primeiro dos perdedores…
Então chegamos na situação de hoje: Felipe depois de 2008 jamais foi o mesmo, os possíveis “sucessores” ainda são apenas promessas e o povo não tem paciência para esperar por novos possíveis campeões. O Brasil quer ouvir o hino da vitória!
Sem resultados expressivos, a audiência cai. Sem audiência, a TV relega o automobilismo ao segundo plano. Em segundo plano, menos torcedores surgem e nessa roda viva vamos sofrendo.
Para quem quer iniciar no automobilismo, os custos são absurdamente proibitivos e o retorno da mídia, zero.
Acompanhei na década de 70 as carreiras de Piquet, Serra e Senna desde as categorias de base. “O Globo” dava tanto destaque para uma prova de F3 como para a de uma F1. Até mesmo a Rede Globo chegou a transmitir ao vivo uma prova de F3 com  participação de Ayrton.
Hoje, eles cancelam a F1 para transmitir futebol!
Por quê? Porque falta um ídolo. Um brasileiro disputando o campeonato de igual para igual, tocando rodas com Vettel, Hamilton e de preferência, vencendo.
MInha sugestão? Criar uma academia de desenvolvimento de pilotos com o apoio de empresas privadas, do governo e da mídia. Apoiar aqueles que mais se destacarem e investir maciçamente a medida em que os resultados apareçam  e surja um novo brasileiro vencedor na F1. Com as vitórias e a divulgação delas, o interesse ressurgirá no público, a audiência retornará e o Brasil terá um ou mais ídolos pelos quais torcer.
Não é um programa de TV que despertará o interesse pelo piloto, mas o sucesso do piloto é que despertará o interesse pelo programa de TV. Se a divulgação do sucesso for efetuada em reportagens pela mídia, o público virá.

Em tempo: vejam o exemplo do MMA.

5 comentários:

  1. Carlos Rabello Neto12:40 PM, agosto 25, 2013

    Todo o histórico e diagnose do problema são válidos. A questão da sugerida Academia de Pilotos esbarra em alguns problemas: 1- O maior de todos: evitar que o processo seletivo seja contaminado pelos favorecimentos tão comuns no histórico nacional e, consequentemente, sua corrupção, até mesmo sob a forma de "dinastias" que, como se vê, não garantem o "sucesso de sucessores de nomes famosos". Logo, a tal Academia teria que optar entre uma "independência" absoluta dos fabricantes de chassis e motores de baixo a cima, ou, trabalhar para um fabricantes e marcas distintas, sem interesses conflitantes, com objetivos e "contratos" de década de duração.
    A segunda opção já se encontra em andamento, pelo menos na Inglaterra. Há suporte direto da McLaren e da Red Bull, bem como da BMW e Nissan, para centros de treinamento muito avançados e abordando diferentes atributos a serem desenvolvidos junto aos pilotos para que estes apresentem retorno em todos os quesitos do relacionamento. Não se resume a guiar! Há aspectos de relacionamento com público, mídia e patrocinadores que pesam muito. Mais ainda, pesa a capacidade de trabalhar com a equipe sem "ataques de estrelismo" e com a postura considerada politicamente correta, ou seja, para ser um funcionário da equipe. Pois, muitos têm implodido suas plataformas de acesso ao pensarem que seus, digamos, bons resultados são suficientes para promovê-los a "donos do mundo" que tudo podem a qualquer tempo.

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  2. Carlos Rabello Neto12:41 PM, agosto 25, 2013

    Fico preocupado quando, por exemplo, assisto a entrevistas de um piloto de enorme talento como o Felipe Nasr, nossa melhor aposta a curto e médio prazo para a F-1. O "rapaz" não tem a menor noção de como se portar adequadamente frente às câmeras e impressiona que mesmo tão bem assessorado em outros aspectos, neste, de "exposição de imagem" junto à TV, continue tão distante do mínimo ideal. Precisa ser treinado! Para se sustentar na F-1 vai precisar e muito evoluir neste aspecto.
    Posso afirmar que já vi os próximos pilotos das equipes e marcas supracitadas sendo treinados em todos os quesitos..e a cadeia vai retroativamente até o kart!!
    Quanto ao processo seletivo em si mesmo, esta Academia, ao exemplo de outras existentes, por exemplo, na França, tem que ter os recursos para trazer os "ainda potenciais" candidatos para uma condição de inequívoca igualdade de condições. A Copa Petrobrás de kart já passou perto..Mas, como "prova acadêmica" a "banca" teria que ter equipamento e mão de obra idênticos e isentos de interferências e privilégios até mesmo de seus "patrocinadores e parceiros" para avaliar o talento quanto à pilotagem; a capacidade de se relacionar bem com a mídia; de "etiqueta" em eventos dos patrocinadores etc... Não é tarefa fácil para se levar a efeito sem um compromisso antecipado, irrevogável, estável e duradouro. Enfim, ter-se-ia que evoluir muito, antes de tudo, culturalmente.

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  3. Carlos Rabello Neto12:42 PM, agosto 25, 2013

    Após a formação inicial, ainda se têm que projetar o pupilo no cenário internacional em condições que o permita começar a "justificar" o investimento. Salvo se os "parceiros & patrocinadores" tenham seus próprios times nas categorias de ascensão, só acredito na sustentabilidade do projeto se a Academia tiver a sua própria equipe e seus cargos-chaves ocupados por técnicos brasileiros para trabalharem um único carro por categoria. Se necessários dois carros, por questões de economia de escala e coleta de dados comparativos, já fica mais complexo..Mas, considerando-se a maioria ou poder de decisão nacional para nacionais, ainda, é administrável. Hoje, pode-se aumentar ou diminuir até a potência e torque de um carro sem precisar de outra ferramenta além de um computador plugado ao carro na hora da largada...3% a menos em categorias de acesso já são suficientes para "comprometer o resultado", sendo quase imperceptível para o "público externo". Cada um que chegue a suas próprias conclusões quanto aos diferentes cenários possíveis, favoráveis e desfavoráveis, de se "pagar pra andar" em times com diferentes nacionalidades e interesses envolvidos. Eu,se tivesse que administrar suficiente budget à disposição, faria a opção de Nelson Piquet (pai) quando da "apresentação" de Nelson Jr na Europa. Do contrário, só se fosse "associado" a um programa ligado às marcas citadas lá em cima..Pagar para times estrangeiros por um lugar dentre os 3, 4 ou até 5 carros com os quais a equipe compete numa mesma categoria, nem pensar. Melhor ficar no Brasil ou ir pros USA.

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  4. Carlos Rabello Neto12:43 PM, agosto 25, 2013

    Também há a questão de honrar ou retribuir de alguma forma o suporte recebido, por parte dos "selecionados e formados". Além da "agenda" cada vez mais apertada dificultando a disponibilidade para "trabalho não remunerado", ter-se-ia que controlar e superar a "mesquinhez mental" daqueles que não seriam capazes de "distribuir conhecimento adquirido via Academia e depois expandido". O "coaching" precisa cumprir efetivamente sua função e não é o que tenho "percebido" na maioria dos casos. Alguns "coachs" sequer têm acesso ao "log" da sessão. Outros sequer são capazes de interpretá-lo. E ainda acham "estranho" ( ridículo, nas palavras de alguns) portarem cronômetros, pranchetas, planilhas, caneta e papel, etc..Alguns ficam em alguma arquibancada focados em seus celulares( cuidando de seus interesses como pilotos) e não capazes de acompanhar o que seu pupilo estava fazendo, nem identificar e relatar ao trainee onde e porque o melhor da sessão ganhava tempo em relação aos demais. Um desvirtuamento grosseiro que além de sangrar recursos de pais mais afoitos ou exibidos, pouco ou nada acrescenta à formação do trainee. Na verdade,na maioria esmagadora dos casos, tais pais entregam seus "pintinhos para a raposa tomar conta".
    Aceita e colocada em prática nos moldes "teoricamente ideais", acredito que os resultados apareceriam e os pupilos seriam capazes de voltar a despertar o interesse da cadeia TV-Ibope-Patrocinadores, como elemento necessário e desejado..
    Espero ter contribuído ao desenvolvimento dos conceitos e idéias dos apaixonados pelo esporte, preocupados em resgatar, antes que seja tarde, o alto nível de competitividade e representatividade do automobilismo brasileiro no cenário internacional. Abraço a todos!

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  5. Todos estes comentários são dos mais lúcidos que recebi nesses quase vinte anos de estrada cobrindo a F1.
    Recomendo a todos os leitores do blog que os leiam, reflitam e claro, opinem também.
    Muito obrigado, Carlos!

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